Operating model: o que precisa de existir para a estratégia funcionar

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Geral
Macro Consulting
13 fevereiro 2026
62 min de leitura

A maioria das organizações confunde operating model com organigrama, reduzindo decisões estruturais a linhas de reporte. Este artigo clarifica o que um operatin...

Operating model: o que precisa de existir para a estratégia funcionar

Clarificar o que é um operating model e porque vai muito além do organigrama

 

Um operating model é o conjunto integrado de escolhas sobre como o trabalho é efectivamente feito na organização, desde quem decide o quê, até como a informação flui, que tecnologias suportam as operações e como os diferentes actores se coordenam para entregar a proposta de valor. Na prática, traduz a estratégia em decisões concretas sobre processos, papéis, governance, informação e tecnologia, criando o “sistema operativo” que permite que a ambição estratégica se materialize em resultados tangíveis.

 

Enquanto a estratégia responde sobretudo ao “porquê” e ao “quê” – por que razão a organização existe, que segmentos quer servir, que proposta de valor oferece e que posicionamento competitivo persegue – o operating model responde ao “como” e ao “quem” de forma integrada: como o trabalho crítico é desenhado, executado e melhorado, e quem detém autoridade, responsabilidade e meios para o fazer. A estratégia define a intenção e o campo de jogo; o operating model define as regras práticas de jogo, a configuração da equipa em campo e o modo como a bola circula.

 

O organigrama, por seu lado, responde apenas a uma fração do “quem”: clarifica linhas formais de reporte, unidades organizacionais e, em alguns casos, níveis hierárquicos e amplitudes de controlo. É uma representação estática de relações formais de autoridade, não de como o trabalho acontece na realidade. Um mesmo organigrama pode suportar operating models radicalmente diferentes, consoante os fluxos de decisão, os mecanismos de coordenação, o desenho de processos e o papel atribuído à tecnologia. Tratar o organigrama como sinónimo de operating model conduz frequentemente a mudanças superficiais, com pouco impacto na execução.

 

Os processos, isoladamente, respondem sobretudo ao “como” numa perspetiva funcional ou departamental: descrevem actividades, sequências de tarefas, inputs e outputs. Sem clarificar quem decide, com base em que informação, como se articulam prioridades entre áreas e como são geridos trade-offs, o desenho de processos tende a gerar documentação volumosa mas pouca mudança comportamental. O operating model integra os processos de ponta-a-ponta com os papéis, a governance e a infraestrutura tecnológica, garantindo que o desenho conceptual é exequível no terreno.

 

Um operating model robusto começa por explicitar os fluxos de decisão críticos: que decisões são tomadas em que níveis, com que cadência, com que critérios e com que dados de suporte. A alocação clara de direitos de decisão (decision rights) em temas como preços, investimentos, alocação de capacidade, desenvolvimento de produto ou gestão de risco tende a reduzir ciclos de aprovação, conflitos latentes e retrabalho, ao mesmo tempo que aumenta a responsabilização individual e colectiva (MGI).

 

Numa segunda dimensão, o desenho de processos de ponta-a-ponta foca-se em como o trabalho “atravessa” funções e unidades, desde o gatilho inicial até ao resultado final para o cliente. Em vez de optimizar departamentos de forma isolada, um operating model eficaz identifica “value streams” e constrói processos que minimizam transferências, esperas e ambiguidade de ownership. Esta visão end-to-end é particularmente crítica em contextos omnicanal, cadeias de valor globais ou serviços públicos complexos, onde o cliente percebe apenas a experiência integrada, não as fronteiras internas.

Os papéis e responsabilidades são a terceira peça estrutural: definem quem é accountable por resultados, quem executa que tarefas e quem é consultado ou informado em cada decisão relevante. A ausência de claridade nesta dimensão tende a gerar zonas cinzentas (“ninguém” é claramente responsável) e sobreposições (“todos” se sentem donos de um tema), com impacto directo na velocidade e qualidade da resposta. Um operating model de qualidade traduz ambições estratégicas em perfis de funções, capacidades críticas e modelos de staffing coerentes com a carga de trabalho efectiva.

 

Os mecanismos de coordenação e governance constituem a quarta dimensão nuclear: comités, fóruns de decisão, rituais de planeamento, rotinas de acompanhamento de performance, regras de escalamento de conflitos e mecanismos de alinhamento interfuncional. Estes elementos definem como a organização toma decisões colectivas, gere dependências entre áreas e reage a desvios face ao plano. Sem uma arquitectura de governance clara, as decisões tendem a concentrar-se em poucos indivíduos, a ser reabertas constantemente ou a ser tomadas de forma ad hoc, o que fragiliza a execução e torna a organização vulnerável a choques externos (OECD).

 

Finalmente, a infraestrutura de informação e a tecnologia de suporte determinam que dados estão disponíveis, com que qualidade e em que momento, e que automatismos são possíveis. Um operating model moderno especifica que sistemas suportam cada macroprocesso, como os dados são capturados e integrados, que análises estão acessíveis aos decisores e que interacções com clientes e parceiros são digitalizadas. A coerência entre desenho organizacional e arquitectura tecnológica é crítica: sistemas desenhados para uma realidade funcional antiga tendem a bloquear novas formas de trabalho e a perpetuar silos de informação.

 

A qualidade de um operating model pode ser avaliada em primeiro lugar pelo grau de alinhamento com a ambição estratégica: prioridades estratégicas diferentes (liderar inovação, escalar com eficiência, oferecer serviço de excelência, reduzir risco sistémico) exigem configurações distintas de decisões, processos e governance. Quando o modelo operativo não reflecte estes trade-offs, surgem tensões internas permanentes, objectivos contraditórios e iniciativas dispersas, mesmo quando a estratégia está bem formulada.

 

Um segundo critério é o foco efectivo no cliente ou utilizador final. Operating models de elevada qualidade fazem “backward design”: partem da experiência alvo do cliente e desenham decisões, processos e fluxos de informação a partir desse ponto, em vez de extrapolar a partir de estruturas internas históricas. Este enfoque tende a reduzir tempos de ciclo, erros e esforços desnecessários, ao mesmo tempo que simplifica a experiência do cliente e aumenta a probabilidade de captura de valor económico ou social (European Commission).

 

A coerência interna entre dimensões é outro atributo central: fluxos de decisão, processos, papéis, governance e tecnologia têm de ser mutuamente consistentes. Um modelo que empodera equipas locais na teoria, mas mantém sistemas de informação centralizados e fóruns de aprovação múltiplos na prática, gera dissonância organizacional e comportamentos defensivos. Quanto maior a coerência, menor a fricção organizacional, menor a necessidade de microgestão e mais previsível se torna a execução.

 

Simplicidade operacional é um critério frequentemente subestimado: um operating model eficaz elimina complexidade desnecessária em níveis hierárquicos, fóruns de decisão, excepções de processo e variantes de produto ou serviço. A evidência sugere que, a partir de determinado ponto, a complexidade interna cresce mais rápido do que o valor marginal gerado, gerando custos de coordenação, confusão e lentidão decisória que corroem a vantagem competitiva (MGI). A simplicidade não é sinónimo de simplismo: resulta de escolhas deliberadas sobre o que não fazer e o que não tolerar como excepção.

 

A capacidade de adaptação e escalabilidade completa o conjunto de critérios: um operating model robusto permite absorver crescimento, mudanças regulatórias ou choques de procura com ajustes incrementais, sem necessidade de reengenharias constantes. Isto implica modularidade nos processos, graus de liberdade nos papéis, mecanismos de feedback rápidos entre front-office e back-office e tecnologias configuráveis. Modelos demasiado rígidos funcionam bem em “dias de sol”, mas colapsam sob stress; modelos excessivamente fluidos tendem a perder consistência e disciplina de execução.

 

Na prática, o conceito de operating model falha frequentemente por ser usado como buzzword desancorada de implicações concretas. É comum encontrar apresentações em que “redesenhar o operating model” significa apenas mudar alguns títulos, juntar ou separar direcções e redesenhar caixas e linhas de reporte, sem tocar nos verdadeiros nós: quem decide, com base em que informação, com que incentivos e com que mecanismos de aprendizagem. O resultado são reorganizações cosméticas que geram desgaste político, mas pouco impacto operacional.

 

Outra fonte típica de falha é a condução de projectos de operating model como exercícios abstratos, desconectados da realidade do terreno. Modelos desenhados em salas de reunião, sem observação directa do trabalho real, tendem a sobrestimar capacidades, subestimar constrangimentos e ignorar variações de contexto entre geografias, unidades de negócio ou serviços. Quando o novo modelo encontra a realidade operacional, multiplicam-se excepções, soluções paralelas e “atalhos” informais, corroendo rapidamente a intenção original.

 

A ausência de métricas claras de desempenho do modelo operativo contribui igualmente para o insucesso. Muitas organizações medem resultados financeiros e indicadores comerciais, mas não monitorizam a qualidade do próprio sistema operativo: tempos de decisão em temas críticos, número de interfaces por processo, esforço de coordenação entre áreas, grau de automação de tarefas repetitivas, ou percentagem de decisões apoiadas em dados estruturados. Sem um “painel de saúde” do operating model, as disfunções acumulam-se de forma invisível até se manifestarem em crises de execução mais visíveis (Banco de Portugal; IMF).

 

Por fim, é frequente que iniciativas de operating model sejam fragmentadas por função ou por tema – um projecto de processos numa área, uma revisão de governance noutra, uma implementação tecnológica num terceiro silo – sem uma arquitectura integradora que assegure coerência. Esta abordagem incremental e descoordenada tende a produzir sobreposições, lacunas e regras contraditórias, aumentando a complexidade e reduzindo a capacidade de execução. Um operating model eficaz exige decisões sistémicas, ancoradas em prioridades estratégicas claras e numa visão transversal de como o trabalho se articula para entregar valor ao cliente.

 

 

Componentes críticos do operating model: decisões, processos, responsabilidades e coordenação

 

A arquitetura de decisão é o primeiro determinante da capacidade de execução, porque define quem tem autoridade sobre quais escolhas, com que informação e em que momentos do ciclo de gestão. Nas decisões estratégicas, o foco está em escolhas irreversíveis ou de longo alcance – portefólio de negócios, alocação de capital, grandes movimentos de M&A, posicionamento geográfico – típicamente concentradas em conselhos de administração e equipas executivas, com cadências trimestrais ou anuais. Já as decisões táticas traduzem a estratégia em planos concretos de marketing, capacidade, pricing, footprint operacional ou prioridades de investimento, exigindo fóruns mensais ou trimestrais, com participação alargada a líderes de unidade e funções centrais. As decisões operacionais, por sua vez, são de alta frequência e impacto imediato no serviço ao cliente e na eficiência diária, devendo estar o mais possível delegadas perto da linha da frente, com ritmos diários ou semanais e regras simples de escalonamento. A forma como estes três níveis se articulam – que temas sobem, quais ficam na linha, com que critérios – tende a determinar se a organização atua com rapidez e consistência ou se fica presa em ciclos de re-trabalho e micro-gestão.

 

O desenho disciplinado da arquitetura de decisão implica mapear explicitamente as decisões críticas para a estratégia e ligá-las a owners, dados e rituais concretos. Em vez de discutir genericamente “investimentos” ou “inovação”, a liderança pode listar decisões recorrentes de alto impacto, como “entrar ou não em novos segmentos”, “lançar ou matar produtos”, “definir preços de referência”, “distribuir capacidade entre canais”, “priorizar iniciativas de tecnologia”. Para cada decisão, clarifica-se quem recomenda, quem decide, quem executa e quem tem direito de veto, bem como quais os dashboards e análises exigidos e a cadência em que a decisão é revista. Quando esta matriz não existe, surgem padrões típicos: decisões que “flutuam” entre áreas sem conclusão; temas que sobem desnecessariamente ao CEO; ou, no extremo oposto, decisões fragmentadas por função, gerando soluções locais inconsistentes com a direcção estratégica.

 

Os fóruns de decisão funcionam como a infraestrutura social desta arquitetura, condicionando a qualidade e a velocidade das escolhas. Em organizações de desempenho elevado é frequente encontrar um número limitado de comités estratégicos e táticos com mandatos claros, agendas ancoradas em decisões concretas e regras explícitas de preparação de informação (MGI). Nestes fóruns, o tempo é protegido para discutir trade-offs e riscos, mais do que relatórios descritivos; o material circula com antecedência definida; e as decisões são registadas com responsáveis e prazos. Em contraste, ambientes saturados de reuniões pouco estruturadas produzem a ilusão de alinhamento, mas deixam vagas as decisões nucleares, alimentando conflitos informais posteriores. A disciplina de “one meeting, one decision owner” reduz ambiguidade e acelera a transição de debate para execução.

 

O desenho de processos ponta-a-ponta converte estas decisões em fluxos de trabalho previsíveis, que cruzam funções e unidades organizacionais. Processos como desenvolvimento de produto, aquisição de clientes, gestão de sinistros, concessão de crédito, supply chain ou pós-venda atravessam marketing, comercial, operações, risco, IT e finanças; quando desenhados apenas por silos funcionais, acumulam-se passos redundantes, transferências de responsabilidade e pontos cegos de informação (OECD). Mapear os fluxos críticos do ponto de vista do cliente e do resultado económico, e não da hierarquia interna, permite identificar atividades que não acrescentam valor, gargalos e interfaces mal definidos. O impacto na execução é direto: processos claros reduzem ciclos de aprovação, melhoram previsibilidade e libertam capacidade de gestão para temas realmente estratégicos.

 

Para que estes processos funcionem como “linhas de valor” estáveis, é decisivo atribuir owners de processo com autoridade transversal. Um owner de processo de desenvolvimento de produto, por exemplo, deve ter mandato explícito para harmonizar prioridades entre marketing, I&D, operações, risco e IT, bem como responsabilidade por indicadores globais como time-to-market, sucesso comercial e margens. Sem esta figura, cada função optimiza a sua parte do fluxo – maximizar qualidade técnica, minimizar risco, reduzir custo unitário – mesmo que o resultado sistémico seja atrasos crónicos, produtos desalinhados com o mercado ou custos ocultos na gestão de exceções. A criação de comunidades de processo, que reúnem representantes das principais áreas envolvidas, é um mecanismo prático para resolver tensões, priorizar melhorias e manter os fluxos alinhados com a estratégia.

 

A definição de métricas de desempenho associadas a cada processo é o mecanismo que fecha o ciclo entre desenho e execução. Indicadores como tempo de ciclo, taxa de retrabalho, NPS por etapa, custo por unidade processada, taxa de conversão ou cumprimento de SLAs internos permitem quantificar fricções e orientar iniciativas de melhoria contínua. A saída do operating model deixa de ser apenas cumprimento de tarefas e passa a ser performance mensurável ao longo da cadeia de valor. Quando estas métricas são transparentes e comparáveis entre equipas ou unidades, criam-se referências internas que incentivam aprendizagem e difusão de boas práticas, reduzindo a dependência de intervenções centralizadas.

 

Ao nível individual, a clarificação de papéis, responsabilidades e accountabilities traduz a arquitetura de decisão e os processos em comportamentos concretos. Frameworks como RACI (Responsible, Accountable, Consulted, Informed) ajudam a tornar explícito quem executa, quem responde pelo resultado final, quem deve ser consultado antes de decidir e quem apenas precisa de ser informado. A utilização rigorosa deste tipo de ferramenta em decisões e processos críticos reduz duas patologias comuns: decisões com demasiados “donos”, em que ninguém assume verdadeiramente o resultado; e zonas cinzentas em que temas importantes caem entre áreas, porque cada uma assume que a outra é responsável. A clarificação prévia de accountabilities tende a reduzir conflitos pessoais, porque desloca o debate do “quem mandou fazer” para o “quem estava desenhado para decidir”.

A ligação entre responsabilidades formais e sistemas de incentivos é o passo que garante coerência entre o modelo no papel e os comportamentos no terreno. Quando objetivos e avaliação de desempenho continuam organizados exclusivamente por função, mesmo após a definição de owners de processo ou de decisões transversais, o resultado é frequentemente uma tensão destrutiva: líderes são responsabilizados por indicadores sistémicos sem poder real para mover recursos ou influenciar prioridades alheias. Em contrapartida, a inclusão de métricas de colaboração, qualidade do processo ponta-a-ponta e criação de valor global nos objetivos individuais – sobretudo dos níveis de gestão intermédia – aumenta a probabilidade de as equipas internalizarem a lógica do operating model e não apenas a do seu silo imediato.

 

Os mecanismos de coordenação e governance são a “cola” que mantém alinhados decisões, processos e responsabilidades em ambientes complexos. Comités de portefólio, fóruns de planeamento integrado de capacidade, reuniões de sales & operations planning (S&OP), steering committees de programas críticos ou rituais de acompanhamento semanal de performance funcionam como pontos de sincronização entre áreas. O seu valor não está no número de reuniões, mas na clareza do mandato: quais as decisões que podem ser tomadas ali, quais as dependências que devem ser resolvidas, que conflitos de prioridade são arbitrados nesse nível. Uma governance eficaz reduz o volume de escalonamentos ad hoc para o topo e, ao mesmo tempo, evita que temas estruturais fiquem aprisionados em negociações locais entre funções.

 

As regras de escalonamento e os acordos de serviço internos (SLAs) são instrumentos operacionais que estabilizam esta coordenação no dia a dia. Regras claras sobre quando um tema operacional deve subir para nível tático, e quando um impasse tático deve ser levado a um fórum estratégico, evitam tanto o bloqueio por indecisão como a sobrecarga da liderança com microdetalhes. Em paralelo, SLAs entre áreas – por exemplo, prazos de resposta de IT a pedidos de negócio, tempos máximos de aprovação de crédito, janelas de entrega de dados por finanças às unidades comerciais – criam expectativas mútuas e permitem gerir dependências de forma preditiva. Quando estes acordos são monitorizados com transparência, a discussão passa de acusações genéricas (“IT nunca responde”, “o negócio pede tudo em cima da hora”) para gestões objetivas de capacidade e prioridade.

 

A infraestrutura de suporte – dados, sistemas e ferramentas – condiciona de forma decisiva a qualidade, velocidade e previsibilidade de todo o modelo, mas deve ser tratada como habilitador e não como o desenho em si. Decisões estratégicas e táticas requerem informação integrada sobre clientes, custos, riscos e capacidade; se os dados estão dispersos por múltiplos sistemas não reconciliados, a discussão estratégica deriva frequentemente para disputas sobre “qual é o número certo” em vez de escolhas de direção. A consolidação de repositórios de dados críticos e a definição de “single sources of truth” para indicadores-chave tornam as decisões reprodutíveis e auditáveis, reduzindo a dependência de análises ad hoc produzidas por indivíduos específicos (European Commission; MGI).

 

Finalmente, a escolha e configuração de sistemas e ferramentas deve derivar das exigências do operating model e não o contrário. Plataformas de workflow, CRMs, ERPs, ferramentas de colaboração ou soluções analíticas só reforçam a capacidade de execução quando espelham decisões, processos e responsabilidades já clarificados. Quando a tecnologia é tratada como substituto de desenho organizacional, é frequente ver organizações a digitalizar processos mal desenhados, cristalizando ineficiências e criando complexidade adicional. Em contraste, quando a sequência é respeitada – clarificar arquitetura de decisão, mapear processos ponta-a-ponta, definir accountabilities, especificar mecanismos de coordenação – a tecnologia atua como multiplicador: automatiza rotinas de baixo valor, torna visíveis métricas de desempenho relevantes e institucionaliza boas práticas, libertando gestores para decisões que realmente exigem julgamento.

 

 

Sinais de falha de operating model: fricção, retrabalho e capacidade bloqueada

 

Fricção operacional persistente entre áreas é um dos sintomas mais fiáveis de um operating model disfuncional. Quando equipas comerciais, operações, financeiro, tecnologia ou risco entram em ciclos repetidos de disputa sobre “quem decide o quê” ou “quem faz o quê”, o problema raramente é apenas relacional; tende a refletir mandatos pouco claros, fronteiras difusas entre funções e ausência de critérios explícitos de decisão. Sem uma matriz transparente de domínios de decisão, níveis de autonomia e escalões de escalamento, cada dossier relevante se transforma numa negociação ad hoc, consumindo tempo de gestão e desgastando relações. O resultado é previsível: alinhamentos intermináveis, agendas sobrecarregadas com reuniões de coordenação e decisões que “sobem” desnecessariamente na hierarquia, porque ninguém tem segurança suficiente para assumir uma decisão final.

 

Este padrão de decisões a “subir” é particularmente destrutivo em contextos que exigem rapidez e proximidade ao cliente. Quando as equipas de linha não conhecem os limites do seu mandato, transferem o risco para a hierarquia através do adiamento ou da não decisão, o que alonga ciclos de resposta e aumenta o custo de oportunidade. Em setores com elevada pressão competitiva, esta lentidão traduz-se em janelas de mercado perdidas, incapacidade de responder a propostas concorrentes e erosão de confiança de clientes, que passam a percecionar a organização como pesada e pouco responsiva. A evidência em grandes organizações sugere que a falta de clarificação de accountabilities e de direitos de decisão é um dos principais determinantes de atrasos em decisões críticas (MGI; OECD).

 

Retrabalho recorrente é outro sinal inequívoco de que o modelo operativo não está a suportar a execução. Quando se observam múltiplas versões do mesmo documento a circular, correções sucessivas aos mesmos entregáveis e necessidade frequente de “refazer de raiz” análises ou propostas, a causa costuma estar menos na competência individual e mais na arquitetura de processos. Processos mal definidos, sem fluxos ponta-a-ponta claros, originam interpretações divergentes sobre o que é esperado em cada etapa, levando as equipas a produzir outputs que não respondem ao padrão requerido pelo passo seguinte. Esta assimetria de expectativas gera ciclos de iteração improdutivos, em que cada nova revisão adiciona fragmentos de qualidade, mas sem eliminar o desperdício estrutural de esforço.

 

Um mecanismo típico que alimenta o retrabalho é a existência de pontos de passagem redundantes e de múltiplas instâncias de validação, frequentemente criadas como resposta a incidentes passados. Em vez de corrigir a causa raiz (clarificação de critérios, standards de qualidade, dados de referência), as organizações adicionam “checks” e “gates” que multiplicam handoffs e diluem a noção de dono de processo. Quando ninguém é claramente responsável pelo desempenho ponta-a-ponta, cada função otimiza a sua parcela, mesmo que isso implique devolver trabalho a montante ou exigir reformulações tardias. O efeito líquido é um aumento do lead time, inflacionado por esperas, reenvios e correções sucessivas, sem melhoria proporcional da qualidade percebida pelo cliente interno ou externo.

 

A ausência de donos claros de processo agrava ainda mais a ineficiência, porque remove o incentivo para resolver bloqueios estruturais. Sem um accountable identificado para o resultado final de um processo (por exemplo, “time-to-cash”, “lançamento de produto”, “onboarding de cliente”), os problemas são tratados como incidentes isolados, e não como sintomas recorrentes do desenho. Esta fragmentação impede a identificação de causas sistémicas, como requisitos redundantes de informação, validações em duplicado entre funções ou sequências de atividades que poderiam ser paralelizadas. Em contrapartida, quando existe ownership ponta-a-ponta, esses donos tendem a redesenhar fluxos, eliminar passos sem valor e formalizar critérios de aceitação claros por etapa, reduzindo significativamente o retrabalho (European Commission; Banco de Portugal).

 

Capacidade bloqueada e gargalos crónicos revelam um outro tipo de falha de operating model: a combinação de centralização excessiva de decisões com desequilíbrios de carga entre funções. Equipas críticas permanentemente sobrecarregadas, como jurídico, IT, risco, compliance ou reporting financeiro, tornam-se “pescoços de garrafa” que limitam a taxa máxima de throughput da organização. Quando um pequeno conjunto de pessoas-chave concentra conhecimento, autoridade e acesso a sistemas ou aprovações, todo o fluxo de valor passa a depender da sua disponibilidade. A consequência é a formação de filas de pedidos, atrasos acumulados e priorização de curto prazo reativa, em vez de um pipeline estruturado de trabalho alinhado com as prioridades estratégicas.

 

Este bloqueio é amplificado pela tendência para usar aprovações como mecanismo substituto de clarificação de critérios. Em vez de explicitar ex ante as regras de decisão e os limites de autonomia, muitas organizações exigem aprovações formais de níveis superiores para uma vasta gama de decisões operacionais. Essa centralização, frequentemente motivada por preocupações legítimas de risco ou controlo, acaba por gerar um efeito de “cadeia de montagem parada”: mesmo quando as equipas a montante e a jusante têm capacidade, o processo fica imobilizado à espera de uma assinatura ou parecer de uma função saturada. A evidência em grandes empresas mostra que reduzir o número de aprovações e clarificar guidelines de decisão tende a encurtar significativamente o lead time de processos críticos sem aumento material de incidentes de risco (IMF; MGI).

 

O desequilíbrio de carga entre funções e perfis é outro indicador de desenho deficiente. Quando algumas equipas operam sistematicamente acima da sua capacidade sustentável, enquanto outras apresentam margens de ociosidade ou foco em tarefas de baixo valor, o problema raramente se resolve apenas com “mais recursos”. É frequentemente um sinal de que os processos foram desenhados sem ter em conta capacidades reais, que o portefólio de iniciativas não foi compatibilizado com a capacidade instalada ou que não existem mecanismos robustos de planeamento integrado de recursos entre áreas. Esta assimetria alimenta um ciclo vicioso: as equipas sobrecarregadas acumulam backlog, perdem talento por burnout e veem a qualidade degradar-se, o que, por sua vez, aumenta o retrabalho e agrava os gargalos.

 

O desalinhamento entre prioridades estratégicas declaradas e as atividades do dia-a-dia é talvez o sinal mais visível para um CEO de que o operating model não está a cumprir a sua função. Iniciativas estratégicas que não avançam, OKR ou planos plurianuais que ficam no papel e projetos críticos sujeitos a adiamentos sucessivos indicam que não existem mecanismos eficazes de desdobramento de objetivos em planos operacionais, nem de realocação intencional de recursos. Quando as equipas passam a maior parte do tempo a responder a pedidos ad hoc, urgências pontuais ou “fogos” operacionais, isto revela que o portefólio de trabalho é determinado pelas solicitações mais ruidosas, e não por uma hierarquia clara de prioridades alinhada com a estratégia.

 

A ausência de mecanismos estruturados de desdobramento de objetivos traduz-se em equipas que não sabem como o seu trabalho diário contribui para as metas críticas da organização. Sem objetivos operacionais ligados diretamente a resultados estratégicos, qualquer tarefa pode parecer legítima, o que cria um ambiente em que é difícil recusar pedidos e quase impossível gerir trade-offs de forma transparente. Da mesma forma, a inexistência de fóruns regulares de revisão de portefólio e de realocação de recursos leva a que novas iniciativas sejam lançadas em cima de cargas já elevadas, sem descontinuar atividades de menor valor. O resultado é uma dispersão de foco, desgaste das equipas e frustração de stakeholders, que não veem progresso tangível nas prioridades anunciadas.

 

Este desalinhamento estratégico-operação manifesta-se de forma particularmente aguda em organizações com múltiplas prioridades concorrentes. Sem um mecanismo explícito de clarificação de sequenciação (o que fazer primeiro), de critérios de seleção de iniciativas e de limitação do work in progress, o sistema entra em overload crónico. Cada nova prioridade absorve tempo de gestão, mas, na ausência de desinvestimento noutras frentes, o impacto efetivo dilui-se. A evidência em programas de transformação mostra que organizações que limitam ativamente o número de iniciativas críticas em curso tendem a ter taxas de conclusão e impacto materialmente superiores às que tentam fazer “tudo ao mesmo tempo” (MGI; European Commission).

 

Indicadores quantitativos e qualitativos oferecem uma forma disciplinada de diagnosticar falhas de operating model para além de perceções anedóticas. Métricas como tempo de decisão para classes específicas de decisões (por exemplo, aprovar investimentos, lançar produtos, resolver reclamações críticas), lead time de processos ponta-a-ponta relevantes para o cliente (onboarding, concessão de crédito, resposta a propostas) e número de handoffs por processo são boas proxies de fricção e de complexidade desnecessária. A acumulação de handoffs tende a correlacionar-se com maior risco de erro, perda de informação e retrabalho, sinalizando oportunidades claras de simplificação de fluxos e de reatribuição de responsabilidades (OECD; Banco de Portugal).

 

Indicadores qualitativos internos, como índices de satisfação entre áreas, perceção de justiça na distribuição de carga de trabalho e qualidade do suporte de funções centrais, ajudam a captar fricções que ainda não se traduzem em métricas financeiras evidentes, mas que corroem a colaboração e a confiança. Níveis elevados de churn em funções-chave, especialmente em equipas que concentram conhecimento crítico ou que operam em regime de “modo permanente de urgência”, são sinais de que o sistema está a extrair valor do talento de forma insustentável. Em paralelo, feedback recorrente de clientes sobre lentidão, incoerência de respostas entre interlocutores, necessidade de “explicar o mesmo várias vezes” ou perceção de burocracia excessiva fornece uma leitura externa direta dos custos de um operating model mal desenhado. Para decisores, acompanhar sistematicamente este conjunto integrado de indicadores permite diferenciar problemas de desempenho individuais de falhas estruturais do modelo operativo e priorizar intervenções com base em evidência, e não apenas em intuição.

 

 

Erros de desenho: organizar para reportar em vez de organizar para executar

 

Em muitas reorganizações, o ponto de partida continua a ser o organigrama formal, tratado como a “peça central” do operating model. O debate concentra-se em quem reporta a quem, quantos níveis hierárquicos existem entre a linha e o CEO, e como redistribuir “status” formal entre funções, relegando para segundo plano as cadeias de valor reais, os handovers críticos e os fluxos de informação que sustentam a execução quotidiana. Este foco na arquitetura hierárquica, em vez da arquitetura de trabalho, tende a gerar estruturas visualmente elegantes, mas com dissonâncias entre o que a organização desenha no papel e o que as equipas precisam para coordenar decisões, partilhar dados e resolver exceções em tempo útil.

 

O resultado típico de projetos centrados no organigrama é a criação de “ilhas hierárquicas” com linhas de comando claras, mas com interfaces frágeis entre elas. As fronteiras formais ficam bem definidas, mas os mecanismos de cooperação transversal permanecem implícitos ou dependentes de relações pessoais, o que torna o desempenho fortemente idiossincrático: funciona enquanto certas pessoas estiverem presentes e cooperarem informalmente, degrada-se quando há rotatividade ou conflito de prioridades. Esta assimetria entre clareza vertical e opacidade horizontal traduz-se em tempos de resposta longos para decisões que atravessam várias funções, conflitos recorrentes sobre “quem manda em quê” e dificuldade em identificar proprietários claros para resultados ponta-a-ponta como lançamento de produtos, integrações de clientes ou resolução de incidentes críticos.

 

Outro erro estrutural recorrente é o desenho da organização em torno de pessoas concretas, em vez de papéis bem definidos e replicáveis. Em contextos de forte dependência de indivíduos sénior ou “talentos estrela”, é frequente cristalizar estruturas para acomodar preferências pessoais (por exemplo, criar direções à medida para garantir reporting direto ao topo ou evitar conflitos entre pares), multiplicando exceções aos critérios formais de desenho. Esta personalização pode resolver problemas políticos de curto prazo, mas enfraquece a lógica de papéis, tornando difícil substituir responsáveis sem redesenhar a estrutura, escalar equipas mantendo coerência de responsabilidades ou comparar desempenho entre unidades com funções teoricamente semelhantes.

 

Desenhar em torno de indivíduos também distorce o equilíbrio entre amplitude de controlo, profundidade técnica e tempo efetivo para liderar. Quando o papel é definido “para caber” numa pessoa em particular, tende a acumular domínios incongruentes (por exemplo, juntar áreas que a pessoa conhece, mesmo que não façam sentido do ponto de vista da cadeia de valor), criando dependências excessivas de um único decisor e reduzindo a resiliência organizacional. Na prática, a organização fica vulnerável a ausências, mudanças de liderança ou conflitos de interesse, porque os papéis não são modulares, as fronteiras de responsabilidade não são intuitivas para novos líderes e a distribuição de autoridade não se ancora em critérios estáveis de risco, materialidade e interdependência.

 

A fragmentação funcional sem visão ponta-a-ponta amplifica estes problemas, sobretudo em modelos onde marketing, vendas, operações, IT e suporte ao cliente são otimizados em silos com métricas locais bem definidas, mas sem um “dono” claro da jornada completa do cliente ou do ciclo económico do produto. Cada função tende a maximizar o seu próprio desempenho (campanhas lançadas, leads geradas, encomendas processadas, tickets resolvidos), mesmo que isso introduza atritos nos fluxos a jusante, porque os incentivos e a accountability raramente estão ancorados em indicadores integradores como tempo ponta-a-ponta de resposta, custo total por caso resolvido ou satisfação do cliente ao longo de toda a interação (MGI; European Commission). A experiência final torna-se fragmentada: o cliente percebe múltiplas entidades a interagir consigo, sem continuidade nem memória institucional.

 

Esta lógica de otimização local também cria zonas cinzentas de responsabilidade: incidentes que envolvem várias funções geram disputas sobre “de quem é o problema”, atrasando ações corretivas e diluindo o sentido de propriedade pelos resultados globais. Sem papéis explícitos para orquestrar fluxos ponta-a-ponta – por exemplo, proprietários de jornadas, de segmentos ou de produtos com autoridade real sobre prioridades e trade-offs – a organização tende a gerir exceções por escalada sucessiva na hierarquia, o que ocupa desnecessariamente o topo, desacelera a resolução e incentiva comportamentos defensivos. A ausência de accountability transversal traduz-se, assim, em maior volume de reuniões ad hoc, proliferação de e-mails de coordenação e dificuldade em fechar decisões que envolvam várias equipas.

 

A governance opaca e inflacionada emerge frequentemente como resposta espontânea a esta fragmentação: para gerir conflitos entre silos, criam-se comités, fóruns e “boards” temáticos que procuram alinhar prioridades sem redesenhar o modelo de base. Com o tempo, a camada de governance torna-se densa, com reuniões recorrentes que agregam múltiplos níveis hierárquicos, agendas vagas e mandatos pouco explícitos sobre o tipo de decisões que cada fórum pode efetivamente tomar. Isto gera redundância de deliberações (o mesmo tema é discutido em vários fóruns sem conclusão), decisões condicionadas por quem está presente e não pelo papel formal, e um ciclo de decisão que se alonga porque os temas são reencaminhados de fórum em fórum até encontrarem um “patrocinador” suficientemente forte.

 

Quando a governance não distingue claramente entre fóruns de alinhamento, de decisão e de escalada, os gestores passam grande parte do tempo em reuniões que produzem recomendações mas não decisões vinculativas, obrigando a reabrir discussões noutras instâncias. A velocidade de execução sofre duplamente: por um lado, porque se prolonga o tempo até à decisão; por outro, porque a ambiguidade sobre quem decidiu o quê dificulta a responsabilização posterior e incentiva revisões constantes de decisões já tomadas. Em contextos regulados ou politicamente sensíveis, esta opacidade agrava o risco de decisões inconsistentes, documentação insuficiente de racional e sensação generalizada de “governance como teatro”, onde a forma prevalece sobre a capacidade efetiva de decidir e implementar.

 

Um erro adicional com impacto estrutural é o desalinhamento entre o desenho do operating model e a estratégia específica da organização, frequentemente motivado pela tentação de copiar modelos de empresas de referência, independentemente da maturidade, do contexto regulatório, da complexidade do portefólio ou da dispersão geográfica. Estruturas “copy-paste” de organizações globais complexas são replicadas em empresas de menor escala ou com capacidades ainda em desenvolvimento, introduzindo camadas desnecessárias de coordenação, especializações prematuras e fóruns de decisão cujo custo fixo em tempo e energia excede o valor que conseguem gerar na fase atual de evolução do negócio (OECD; Banco de Portugal).

 

Copiar modelos também ignora especificidades de modelo de negócio e de contexto local, como a proximidade necessária ao regulador, a importância relativa de canais físicos vs. digitais, a concentração de clientes-chave ou a heterogeneidade de mercados nacionais. Estruturas que funcionam em organizações com portefólios altamente diversificados ou geografias muito dispersas tornam-se rigidez e sobre-engenharia em negócios mais focados, dificultando a agilidade em ajustar ofertas, preços ou processos. Em sentido inverso, adotar estruturas demasiado simples por imitação de empresas “asset light” em negócios intensivos em ativos ou em risco regulatório tende a subestimar necessidades de controlo, separação de funções e gestão de risco, criando vulnerabilidades operacionais e reputacionais difíceis de corrigir a posteriori.

 

No conjunto, estes erros de desenho convergem num padrão: organizar primordialmente para reportar, acomodar pessoas e replicar modelos alheios, em vez de organizar para executar o que é estratégico, ao ritmo e com a fiabilidade que o modelo de negócio e o contexto exigem. Reverter este padrão implica recolocar a lógica de execução ponta-a-ponta, a clareza de papéis escaláveis e a adequação ao contexto como critérios dominantes de decisão organizacional, utilizando o organigrama, a governance e as preferências individuais como variáveis a otimizar em função dessa lógica, e não como o ponto de partida implícito para qualquer reorganização.

 

 

Como o operating model traduz a estratégia em rotinas, métricas e decisões diárias

 

A tradução eficaz da estratégia em prática começa por um desdobramento estruturado e disciplinado dos objetivos de topo em metas concretas por unidade, função e processo. Em vez de declarações genéricas, o operating model obriga a explicitar, para cada objetivo estratégico, quais os outcomes de negócio esperados (por exemplo, margem por segmento, tempo de ciclo, qualidade percebida), quem é responsável por os entregar e que variáveis operacionais os determinam. Este encadeamento transforma uma ambição como “crescer de forma rentável num segmento prioritário” em objetivos por linha de negócio, em metas de produtividade comercial, em especificações de nível de serviço e em requisitos de capacidade nos processos de suporte, permitindo que cada equipa saiba que variável deve mover e em que magnitude relativa.

 

O passo seguinte consiste em converter estes objetivos de negócio em métricas operacionais e indicadores-leading associados a processos concretos. O operating model estabelece, para cada processo crítico, uma cadeia lógica que liga drivers controláveis (por exemplo, taxa de contacto útil, tempo de resposta a leads, tempo de ciclo de aprovação, first-time-right) a resultados de nível superior (receita, custo, risco, satisfação). Esta estrutura obriga a distinguir entre indicadores de esforço, de qualidade de decisão e de desempenho de fluxo, evitando dashboards decorativos e concentrando a medição em poucos números que expliquem variabilidade de resultados. Ao tornar explícitos estes encadeamentos, a gestão pode atuar sobre a causa próxima dos desvios, em vez de reagir tardiamente a falhas nos indicadores financeiros agregados.

 

Uma dimensão frequentemente subestimada é a articulação entre métricas e iniciativas concretas. Um operating model robusto não se limita a medir; estabelece, para cada gap identificado entre metas e desempenho esperado, um conjunto de iniciativas priorizadas, com owners e milestones claros, integradas no calendário de gestão. Assim, a passagem de “resultado abaixo do alvo” para “plano de ação claro” não depende da proatividade individual de um gestor, mas de um mecanismo sistemático: sempre que um determinado indicador-leading se desvia de uma banda pré-definida, desencadeia-se um ciclo de diagnóstico e ação, com alocação explícita de recursos e revisão do impacto esperado sobre os indicadores de resultado.

 

O operating model também atua na seleção das decisões recorrentes que mais influenciam a realização da estratégia, evitando que a agenda de gestão seja colonizada por temas de baixa materialidade. A organização identifica explicitamente quais as decisões com impacto desproporcionado no valor criado e no risco assumido, como a definição do mix de clientes e produtos, as regras de pricing e descontos, a priorização de canais, os investimentos em capacidade e tecnologia, e as concessões em nível de serviço. Para cada uma destas decisões críticas, clarifica-se quem decide, que alternativas podem ser consideradas, que informação mínima deve estar disponível e quais os critérios de trade-off entre crescimento, rentabilidade, risco e experiência do cliente.

 

Esta clarificação de ownership e critérios de decisão é o mecanismo através do qual a estratégia deixa de ser um princípio abstrato e passa a orientar escolhas quotidianas. Em vez de depender de interpretações idiossincráticas, o operating model define guardrails: por exemplo, limites para descontos por segmento e canal, thresholds para investimentos que exigem aprovação em níveis superiores, ou regras para aceitar clientes com determinados perfis de risco. Estes guardrails reduzem a variabilidade indesejada, libertam capacidade da gestão de topo e aumentam a previsibilidade dos resultados, ao mesmo tempo que preservam graus de liberdade suficientes para adaptar a decisão a contextos específicos.

 

Os rituais de gestão constituem o veículo recorrente que mantém esta arquitetura viva e alinhada com a estratégia. Um ciclo de planeamento anual define as grandes metas, aloca recursos e estabelece as prioridades de transformação, mas são as cadências mensais, semanais e diárias que garantem a convergência efetiva. Reuniões mensais e trimestrais de performance combinam revisão estruturada de indicadores-chave com discussão sistemática de riscos emergentes e decisões de reallocation de recursos, assegurando que as unidades não cristalizam planos desajustados ao evoluir do contexto (MGI; OECD).

 

Ao nível mais tático, sistemas de daily e weekly management introduzem uma disciplina de acompanhamento de variáveis operacionais críticas directamente ligadas aos resultados de negócio. Equipas de front-office e operações revêm, em ciclos curtos, poucos indicadores-leading que refletem o fluxo real de trabalho, a qualidade de execução e os principais bloqueios. Estes momentos incluem, por desenho, a identificação de impedimentos, a designação clara de responsáveis pela sua remoção e o escalonamento estruturado de temas que ultrapassam o nível da equipa. A função do gestor de linha passa menos por reportar e mais por orquestrar recursos e decisões para eliminar causas de variabilidade que impedem a entrega consistente da proposta de valor.

 

O valor dos rituais de gestão depende da forma como são desenhados e não apenas da sua frequência. Um operating model consistente define, para cada tipo de reunião, a finalidade principal (decidir, priorizar, monitorizar, aprender), os inputs obrigatórios (dados, análises, propostas), as decisões que podem e devem ser tomadas nesse fórum e o que é explicitamente excluído. Esta engenharia da agenda evita redundâncias, reduz o tempo gasto em reuniões sem outcome e concentra a atenção da liderança nos poucos temas com verdadeiro impacto estratégico. Adicionalmente, a cadência de revisões torna previsível o momento em que temas estruturais serão discutidos, reduzindo decisões ad-hoc reativas e aumentando a coerência intertemporal das escolhas.

 

A articulação entre medição e feedback contínuo é outro mecanismo-chave que liga a estratégia à operação. Um sistema de métricas bem desenhado organiza-se em torno de uma arquitetura que combina indicadores-lagging (como resultado operacional, NPS, churn, imparidades) com indicadores-leading de processo e de capacidade (como qualidade de dados, estabilidade de processos, capacidade instalada vs. utilizada, engagement e rotação de talento crítico). Esta integração permite antecipar desvios antes de aparecerem nos resultados financeiros e reforça a responsabilização por drivers sob controlo direto das equipas, em vez de centrar a avaliação apenas em resultados expostos a fatores exógenos (IMF; Banco de Portugal).

 

O feedback contínuo torna-se operacional quando as métricas alimentam loops de correção rápida, em diferentes horizontes temporais. No curto prazo, desvios operacionais acionam microajustes em escalas, prioridades de carteira ou parâmetros de processo. Em horizontes trimestrais, padrões persistentes de variação conduzem a revisões de desenho de processo, de políticas de risco ou de regras de pricing. No longo prazo, evidência acumulada sobre o desempenho de capacidades e de iniciativas estratégicas conduz a decisões sobre onde reforçar, simplificar ou descontinuar linhas de atividade. A função de controlo de gestão atua como integrador destes loops, traduzindo dados dispersos em narrativas causais que suportam realocações de capital, talento e atenção da liderança.

 

O operating model também incorpora mecanismos explícitos para aprendizagem organizacional, onde o feedback não serve apenas para corrigir, mas para ajustar a própria forma de trabalhar. Revisões pós-implementação de iniciativas relevantes, análises estruturadas de incidentes críticos e ciclos formais de after-action review permitem transformar eventos isolados em alterações de normas, procedimentos e critérios de decisão. Assim, a organização actualiza iterativamente o modelo a partir da experiência, em vez de acumular regras ad-hoc e exceções que, a prazo, tornam a execução mais complexa e opaca.

 

A componente de capacidades e cultura funciona como extensão prática do operating model, garantindo que os papéis definidos podem ser efetivamente desempenhados ao nível de exigência implícito na estratégia. A partir da análise das decisões críticas e dos novos processos-alvo, a organização identifica um conjunto limitado de competências distintivas por família de função, cobrindo não só capacidades técnicas, mas também competências analíticas, de tomada de decisão em condições de incerteza, de colaboração transversal e de liderança de equipas autónomas. Esta clarificação evita que a formação seja genérica e dispersa, orientando o investimento em desenvolvimento para os pontos que desbloqueiam execução.

Os mecanismos formais de desenvolvimento operacionalizam esta ambição de capacidades. Programas focados em decisões e processos reais, coaching on-the-job em reuniões críticas (como pricing committees, reviews de performance de operações, steering de projetos) e desenhos de função que expõem gestores a problemas transversais aceleram a construção de competências relevantes para o modelo-alvo. Em paralelo, critérios de progressão e avaliação de desempenho são ajustados para refletir os comportamentos operacionais desejados, como colaboração interfuncional, capacidade de simplificar processos, rigor na utilização de dados e disciplina na execução de compromissos assumidos.

 

A cultura, neste enquadramento, deixa de ser tratada como um tema difuso e passa a ser um conjunto de expectativas comportamentais ancoradas nos mecanismos formais do operating model. A forma como são tomadas decisões em fóruns de governance, como são tratadas exceções a políticas, como se reagem a desvios de métricas e como são recompensadas ou sancionadas condutas em situações de tensão envia sinais claros sobre o que é aceitável e valorizado. Ao alinhar incentivos, rituais, critérios de promoção e reconhecimento com a estratégia e com o desenho dos processos, a organização reduz a dissonância entre o que afirma ser importante e aquilo que, na prática, é recompensado, aumentando a probabilidade de que os comportamentos diários se alinhem de forma consistente com os objetivos de longo prazo.

 

 

Aplicação em contextos distintos: PME em crescimento versus grupo empresarial multi-negócio

 

Numa PME em crescimento acelerado, o operating model tende a nascer de forma implícita, ancorado na proximidade entre fundadores e equipas e na capacidade de decisão rápida. À medida que a escala aumenta, a mesma lógica que permitiu velocidade começa a gerar gargalos: decisões críticas ficam concentradas em poucas pessoas, a informação circula por canais informais e a ausência de regras claras multiplica exceções. O desafio central passa a ser transformar um modelo de “coordenação por confiança e presença” num modelo de “coordenação por mecanismos explícitos”, sem eliminar a agilidade que permitiu o crescimento inicial.

 

A dependência de fundadores manifesta-se tipicamente em três frentes: decisões comerciais relevantes permanecem centralizadas, conflitos entre funções são resolvidos por apelo direto ao fundador e alterações de prioridades surgem por impulso oportunístico e não por um processo claro. Este padrão tende a gerar fadiga de decisão no topo, incerteza nas equipas e ciclos de retrabalho, porque as orientações mudam mais rápido do que os processos conseguem absorver. A clarificação explícita de quais decisões sobem aos fundadores, quais são delegadas e quais são automatizadas torna-se o primeiro movimento estruturante de operating model numa PME em aceleração.

 

A informalidade dos processos, muitas vezes vista como vantagem competitiva, começa a ter custos visíveis quando a base de clientes cresce e a diversidade de produtos ou geografias se amplia. Sem processos mínimos de ponta-a-ponta documentados, a qualidade torna-se inconsistente, o onboarding de novos colaboradores é lento e a resolução de incidentes depende do “histórico” de algumas pessoas-chave. A evidência em PME de alto crescimento sugere que a sistematização selectiva de 5–10 processos críticos (por exemplo, lead-to-order, order-to-cash, gestão de incidentes, desenvolvimento de produto, contratação) é um fator determinante para escalar com previsibilidade (MGI; OECD).

 

A ausência de governance formal traduz-se muitas vezes em reuniões pouco produtivas, decisões não registadas e temas estratégicos misturados com questões operacionais. Em contextos de crescimento acelerado, é frequente que o mesmo fórum discuta desde o lançamento de um novo país até ao detalhe de uma fatura em litígio, sem critérios de priorização. A transição para um operating model mais robusto implica desenhar uma arquitetura de governance simples: 2–3 fóruns regulares bem definidos (por exemplo, direção executiva semanal, fórum comercial, fórum de produto), cada um com mandato claro, decisões-tipo, participantes fixos e rituais de preparação e follow-up.

 

Nas PME, as escolhas estruturantes de papéis de liderança são particularmente críticas porque cada posição de primeiro nível tende a concentrar uma amplitude muito grande de temas. A clarificação entre quem é responsável por P&L, quem detém decisões sobre alocação de recursos e quem lidera capacidades transversais (como tecnologia ou pessoas) reduz conflitos de fronteira e acelera a execução. Em muitos casos, a criação explícita de um “COO de facto” ou de um responsável por operações que absorve a coordenação do dia-a-dia liberta os fundadores para decisões de direção estratégica, parcerias e capital.

 

Num contexto de recursos limitados, a priorização de alguns poucos processos críticos torna-se uma escolha de portefólio operacional. Em vez de tentar “formalizar tudo”, os líderes definem quais são os fluxos que mais impactam receita, experiência de cliente ou risco, e concentram aí o esforço de desenho de ponta-a-ponta, métricas e clarificação de responsabilidades. Este foco seletivo permite criar provas de conceito de disciplina operacional, gerar ganhos rápidos (por exemplo, redução de tempo de ciclo de vendas ou de erros de faturação) e criar uma narrativa interna de que o operating model é uma alavanca para o negócio, e não um exercício burocrático.

 

A institucionalização de rituais de gestão simples é outro mecanismo de alto impacto em PME. Reuniões diárias de 15 minutos em equipas críticas, revisões semanais de pipeline com critérios explícitos, ciclos mensais de revisão de desempenho operacional e momentos trimestrais de alinhamento estratégico funcionam como “esqueleto rítmico” da organização. Estes rituais, quando associados a um conjunto curto de indicadores e a decisões padrão para desvios, reduzem a dependência de intervenções ad hoc dos fundadores e criam previsibilidade para as equipas.

 

A coordenação interfuncional em PME em crescimento tende a ser mais eficaz quando suportada por mecanismos simples, em vez de estruturas formais complexas. Working groups temporários com mandato claro para resolver problemas específicos (por exemplo, reduzir churn, acelerar implementação de projetos), owners de processos que atravessam funções e a definição explícita de “pontos de contacto” entre áreas (por exemplo, comercial–operações, produto–tecnologia) permitem mitigar silos emergentes antes de exigirem reestruturações mais pesadas. O ganho está em reduzir zonas cinzentas sem sobrecarregar a organização com camadas de reporte.

 

Num grupo empresarial com múltiplas áreas ou negócios, o problema de base é diferente: o operating model precisa de gerir a tensão estrutural entre captura de sinergias e preservação de autonomia local. A holding ou centro corporativo pode tanto ser um catalisador de valor, através de plataformas, talento e disciplina de capital, como um elemento que acrescenta complexidade, duplicação de trabalho e lentidão de decisão. A qualidade do desenho do modelo centro-negócios explica boa parte da diferença entre grupos que criam valor consistente e grupos que apenas agregam resultados financeiros (IMF; European Commission).

 

O papel da holding pode assumir lógicas distintas, frequentemente sintetizadas em três arquétipos: “operator”, quando o centro define em detalhe o modo de operar dos negócios, gere funções-chave de forma integrada e intervém na execução; “orchestrator”, quando o centro estabelece direções, guardrails e plataformas comuns, promovendo sinergias, mas deixando a gestão operacional aos negócios; e “investor”, quando a holding atua essencialmente como alocador de capital e gestor de portfólio, com intervenção limitada na operação. A escolha do arquétipo condiciona profundamente o grau de centralização de decisões, a configuração de funções corporativas e o perfil de talento necessário no centro.

 

A definição do que é partilhado versus específico de cada negócio implica decisões granulares sobre capacidades e processos. Funções como tesouraria, fiscalidade, compras indiretas, tecnologia de base e data platforms tendem a beneficiar de economias de escala e de escopo, justificando serviços partilhados ou plataformas comuns. Em contraste, atividades diretamente ligadas ao cliente final, desenvolvimento de produto ou pricing frequentemente requerem proximidade ao mercado e flexibilidade, sendo mais eficazes quando desenhadas ao nível de cada negócio. A evidência sugere que grupos mais bem-sucedidos são aqueles que revisitam periodicamente estes limites, ajustando o grau de centralização conforme a maturidade dos negócios e a evolução tecnológica (MGI; Banco de Portugal).

 

Os serviços partilhados, quando bem desenhados, funcionam como “fábricas de processos transversais” com standards claros, níveis de serviço acordados e governance de prioridades. Quando mal desenhados, tornam-se centros de custo percebidos como burocráticos, com tempos de resposta longos e foco em eficiência interna em detrimento do valor para os negócios. A chave está em explicitar o contrato de serviço, definir mecanismos de escalonamento de conflitos e garantir que as métricas combinam eficiência (custo, produtividade) com impacto para os negócios (tempo de resposta, qualidade percebida), evitando que a procura fique totalmente à mercê do centro.

 

As plataformas comuns de dados e tecnologia são hoje um eixo central do operating model em grupos multi-negócio. Uma arquitetura de dados partilhada, com modelos e definições comuns, permite comparabilidade de desempenho, gestão consolidada de risco e reutilização de activos analíticos. Ao mesmo tempo, uma centralização excessiva da tecnologia pode travar a experimentação local e a capacidade de adaptar rapidamente soluções às necessidades específicas de cada negócio. O desenho eficaz passa por combinar componentes core partilhadas (por exemplo, identidade, dados mestres, infraestrutura cloud) com camadas de aplicação e configuração mais próximas dos negócios, geridas em governances conjuntas.

 

A governance de portfólio e capital num grupo multi-negócio é, em essência, um mecanismo de operating model aplicado a decisões de grande escala. Critérios explícitos para entrada e saída de negócios, horizontes temporais de investimento, thresholds de retorno esperados e regras de apoio do centro (por exemplo, quando um negócio em turnaround recebe reforço versus é alienado) reduzem o risco de alocação de capital reativa e politizada. Fóruns regulares de revisão de portfólio, com dados comparáveis e cenários alternativos, permitem reequilibrar a carteira em função de oportunidades setoriais, maturidade dos negócios e constrangimentos de risco.

 

As lições transversais entre PME em crescimento e grupos multi-negócio convergem em alguns princípios de desenho que tendem a ser estáveis. A clareza sobre quem decide o quê, com base em que informação e em que horizonte de tempo, permanece a variável crítica em ambos os contextos. O foco em processos de ponta-a-ponta, em vez de otimizações locais por função, é igualmente determinante, seja para reduzir retrabalho numa PME, seja para capturar sinergias numa cadeia de valor partilhada num grupo. A accountability inequívoca por resultados e por integridade de processos é o que permite que estruturas, fóruns e plataformas sejam efetivamente utilizados e não apenas desenhados.

 

Ao mesmo tempo, os elementos do operating model variam significativamente com a escala, o grau de regulação, a dispersão geográfica e a diversidade do portfólio. Em contextos fortemente regulados, os mecanismos de compliance e risco tendem a ser mais centralizados e prescritivos; em geografias múltiplas, os modelos de governance precisam de integrar diferentes regimes legais e culturais, criando um equilíbrio entre standards globais e adaptações locais; em portfólios muito heterogéneos, a lógica de holding aproxima-se frequentemente de um investidor, com ênfase em disciplina de capital e menos em integração operacional. Esta variação torna explícito que não existe um modelo único “ótimo”; o que distingue organizações de alto desempenho é a capacidade de ajustar continuamente o operating model à estratégia, à trajetória de crescimento e às condições externas.

 

 

Instrumentos de diagnóstico do operating model e prioridades de intervenção para executivos

 

Um diagnóstico sério do operating model começa por tornar explícito “como o trabalho acontece na prática”, em contraste com o que está formalmente desenhado. Um mapa de diagnóstico robusto organiza a análise em seis dimensões interligadas: decisões, processos, papéis, coordenação, dados/tecnologia e métricas. Em decisões, avalia-se quem decide o quê, com base em que informação, em que cadência e com que grau de escalões intermédios. Em processos, observa-se o percurso ponta-a-ponta dos fluxos críticos (por exemplo, “do pedido à cobrança”), identificando tempos de ciclo, variação entre equipas e pontos onde o trabalho acumula. Na dimensão de papéis, examina-se clareza, sobreposições e vazios de responsabilidade, sobretudo em interfaces entre funções. A coordenação é analisada através dos fóruns existentes, rituais de planeamento e mecanismos de resolução de conflitos. Em dados/tecnologia, avalia-se se as aplicações e fontes de dados sustentam de facto as decisões e fluxos definidos. Finalmente, nas métricas, testa-se se os indicadores reforçam os comportamentos desejados ou, pelo contrário, criam incentivos contraditórios.

 

Uma avaliação credível exige a combinação disciplinada de três fontes: dados quantitativos, entrevistas estruturadas e observation walks no terreno. Os dados quantitativos fornecem evidência sobre volumes, tempos de resposta, erros, níveis de retrabalho, satisfação de clientes e custos unitários, permitindo localizar “pontos quentes” com impacto económico e de serviço (MGI; Banco de Portugal). As entrevistas com executivos e gestores intermédios permitem entender perceções sobre onde a execução está bloqueada, onde a autonomia é insuficiente ou excessiva e quais as tensões entre funções. Os observation walks — acompanhar equipas em contexto real de trabalho, em backoffice, operações, lojas, fábricas ou centros de contacto — expõem discrepâncias entre o processo “no papel” e o processo real, revelando micro-decisões, workarounds e dependências informais que raramente emergem em reuniões formais.

 

Para tornar esta análise operável, é útil recorrer a um conjunto de ferramentas e frameworks que estruturam o diagnóstico e reduzem a ambiguidade. Uma matriz de decisão (decision rights matrix) clarifica, para cada decisão relevante, quem recomenda, quem decide, quem é consultado e quem é informado, permitindo identificar decisões excessivamente escaladas ou, inversamente, fragmentadas por falta de dono claro. O mapeamento de processos ponta-a-ponta, com granularidade suficiente para capturar sistemas, intervenientes e tempos de espera, revela redundâncias, loops de aprovação desnecessários e dependências tecnológicas críticas. A análise de handoffs — cada vez que um trabalho passa de uma equipa ou função para outra — torna visíveis atrasos estruturais, perda de informação e zonas de conflito frequente entre áreas.

 

Nas funções críticas, um RACI bem construído (Responsible, Accountable, Consulted, Informed) funciona como instrumento de calibração fina entre alinhamento e agilidade. Atribuir demasiados “Consulted” e “Informed” transforma decisões simples em processos morosos; restringir excessivamente o círculo de intervenção pode comprometer a exequibilidade ou a aceitação. O mapeamento de comités e cadências de reuniões oferece outra lente poderosa: identificar a que níveis se discutem temas estratégicos, táticos e operacionais, com que frequência, com que qualidade de informação e com que decisões resultantes. É frequente encontrar redundância de fóruns, agendas pouco focadas e ausência de proprietários claros das decisões, o que sinaliza um operating model que gera esforço de coordenação sem contrapartida em velocidade ou qualidade decisória.

 

A definição de prioridades de intervenção deve ser guiada por uma lógica de impacto em fluxos críticos, mais do que por afinidade funcional ou conveniência política. O ponto de partida é selecionar 3 a 5 fluxos que concentram valor e risco: típicamente, jornadas de clientes (aquisição, onboarding, serviço, renovação), ciclos financeiros (orçamentação, investimento, pricing, cobrança) e cadeias operacionais com grande peso de custo ou complexidade regulatória. Para cada fluxo, estima-se o impacto potencial de melhoria em termos de receita (por exemplo, aumento de conversão, maior retenção), margem (redução de custos diretos e de retrabalho) e risco (menor exposição operacional ou regulatória), usando dados históricos e benchmarking prudente (OECD; European Commission; IMF).

 

Dentro desses fluxos críticos, o equilíbrio entre quick wins e mudanças estruturais aumenta a probabilidade de sucesso. Quick wins tipicamente envolvem clarificações de decisão, simplificação de aprovações, pequenos ajustes de métricas ou reconfiguração de comités, com baixo custo de mudança e impacto visível em semanas ou poucos meses. Mudanças estruturais podem exigir redesenho de processos, reconfiguração de sistemas core, redefinição de reporting lines ou criação de novas unidades de negócio, com horizontes de execução mais longos e maior risco de disrupção. A seleção deve considerar explicitamente o custo de mudança (investimento financeiro, esforço de gestão, risco de saturação das equipas) versus benefício esperado, evitando tanto o viés por iniciativas “glamour” com retorno incerto como o foco estreito em ganhos marginais que não alteram a capacidade estrutural de execução.

 

A governança da transformação do operating model é, em si mesma, um teste ao próprio modelo. O patrocínio executivo tem de ser claro, visível e traduzido em decisões concretas sobre prioridades, afetação de recursos e trade-offs entre unidades. Idealmente, o CEO e o COO assumem em conjunto a accountability pela transformação, com envolvimento sistemático do CFO para garantir disciplina económica das escolhas. Uma equipa dedicada — PMO ou Transformation Office — é responsável por orquestrar iniciativas, gerir interdependências, assegurar consistência metodológica e monitorizar impacto, com mandato para desafiar áreas funcionais quando os compromissos de mudança não são cumpridos.

 

As fases de implementação tendem a seguir uma lógica em três tempos: pilotos, roll-out e institucionalização. Os pilotos permitem testar novas formas de decisão, processos e mecanismos de coordenação em segmentos controlados (por exemplo, uma região, uma linha de produto ou uma unidade operacional), recolhendo evidência sobre impactos e efeitos colaterais. Na fase de roll-out, as soluções validadas são escaladas com um plano claro de dependências tecnológicas, formação e alteração de métricas, garantindo que não se exportam para toda a organização práticas ainda imaturas. A institucionalização implica rever políticas, manuais operativos, descrições de função, sistemas de incentivos e processos de planeamento, de forma a evitar “efeitos elástico” em que a organização regressa silenciosamente ao modelo anterior após o fim da pressão do projeto.

 

Os mecanismos de monitorização de impacto devem combinar indicadores de resultado (tempo de ciclo, NPS, custo unitário, erro, margens) com métricas de saúde organizacional (engajamento, perceção de clareza de papéis, qualidade percebida da colaboração interfuncional). Dashboards simples, revistos em cadências executivas definidas, permitem detetar rapidamente desvios, identificar onde o novo modelo não está a ser adotado e decidir reforços ou correções. A recolha de feedback qualitativo estruturado, através de surveys curtos ou focus groups com gestores e equipas de linha, ajuda a perceber se o operating model está a ser experimentado no terreno como algo que simplifica o trabalho ou como mais uma camada de burocracia.

Para decisores de topo, a principal decisão é como enquadrar o tema na agenda do conselho de administração e da equipa executiva. Abordar o operating model apenas como um subproduto de uma reorganização formal reduz o espaço para discussões sobre criação de valor e tende a concentrar o debate em linhas de reporte e títulos. Uma alternativa mais produtiva é posicioná-lo como alavanca para concretizar decisões estratégicas já tomadas: entrada em novos mercados, aceleração digital, reposicionamento de portfólio, eficiência de capital ou melhoria da experiência de cliente. O conselho pode, por exemplo, exigir uma visão clara de como o modelo de decisão, de processos e de métricas será ajustado para suportar os objetivos estratégicos acordados, antes de aprovar investimentos significativos em tecnologia ou M&A.

 

A articulação com revisões de estratégia e de estrutura organizacional exige disciplina sequencial. A estratégia define o “onde jogar” e “como ganhar”; o operating model responde ao “como entregar”; a estrutura organizacional torna visível quem responde por quê. Em ciclos estratégicos, é prudente reservar tempo explícito para discutir mudanças de operating model que a nova agenda implica, em vez de tratar o tema como detalhe de implementação. Quando uma reorganização estrutural é inevitável, o desenho de unidades e reportes deve ser consequência de decisões já tomadas sobre fluxos críticos, direitos de decisão e modelos de serviço partilhados, e não o contrário.

 

Por fim, a transformação do operating model precisa de estar amarrada às iniciativas de talento, tecnologia e cultura para produzir resultados duradouros. Em talento, isso significa alinhar perfis, planos de sucessão e desenvolvimento com os novos requisitos de decisão e de colaboração (por exemplo, mais capacidade analítica em funções de front-office, mais competências de product management em TI). Em tecnologia, significa priorizar investimentos que removam constrangimentos visíveis nos fluxos críticos e nos direitos de decisão, evitando digitalizar processos mal desenhados. Em cultura, implica tornar explícitos os comportamentos esperados no novo modelo — por exemplo, maior transparência de dados, escalamento rápido de bloqueios, responsabilidade pelo fim-a-fim — e reforçá-los através de exemplos de liderança, reconhecimento e mecanismos de accountability. Este encadeamento aumenta a probabilidade de o operating model deixar de ser um exercício conceptual e passar a ser uma vantagem competitiva operacional tangível.

 

 

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